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2008-08-08 - O programa Media Smart de educação para a publicidade arrancou hoje na Escola Eugénio dos Santos, em Lisboa, onde as crianças se mostraram bem ensinadas quanto aos riscos da publicidade, mas também reconheceram que ainda cedem ao consumo.

Numa aula do 4º ano do primeiro ciclo, embora ministrada excepcionalmente numa escola do segundo ciclo, 18 alunos de nove anos falaram escorreitamente sobre a publicidade e os seus riscos, distinguindo aquilo que são os bons dos maus anúncios.

Apesar de o programa ter arrancado oficialmente hoje, Conceição Henriques, professora destes alunos, afirmou já ter abordado o tema em aulas anteriores, para as quais se preparou recorrendo ao material didáctico criado especificamente para este efeito.

O Media Smart é uma iniciativa da Associação Portuguesa de Anunciantes (APAN) e consiste num programa de literacia sobre publicidade nos diferentes meios de comunicação dirigido às crianças do 1º e 2º ciclos a ser introduzido em todas as escolas públicas e privadas por professores que queiram aderir, com vista a ensinar os mais pequenos a "ler a publicidade", a perceber exactamente o que é transmitido e a saberem discernir o que é válido, bom ou necessário do que é lesivo, inútil ou ofensivo.

De entre várias frases alusivas à publicidade, umas elogiosas e outras de carácter mais pejorativo, os alunos divididos por quatro grupos escolheram, cada um, uma das citações e explicaram a razão da escolha, debatendo simultaneamente a informação transmitida.

"Alguns anúncios transmitem informações importantes sobre saúde e segurança rodoviária" foi uma das frases escolhidas pelos alunos que exemplificaram imediatamente com os incentivos, passados na televisão, à redução da velocidade e a não conduzir depois de beber álcool.

"os anúncios fazem com que as crianças queiram coisas que são más para elas, como as guloseimas", ou "são ofensivas ou encorajam maus comportamentos" e "fazem os pais gastar demasiado dinheiro, porque levam as crianças a insistir para que lhes comprem coisas" foram as outras citações escolhidas.

Durante meia hora de diálogo animado entre a professora e os alunos sobre as frases escolhidas, as crianças reconheceram que devem levar pão para o lanche da escola em vez de doces, que não devem fazer birras para exigir aos pais brinquedos que viram anunciados, que existem anúncios que podem conduzir a comportamentos lesivos como o Wrestling, e que muitas vezes o que é publicitado é muito mais caro do que outros produtos que servem o mesmo fim e que são bem mais baratos.

No final da aula, as crianças mostraram-se satisfeitas com o modelo e contaram tudo o que tinham aprendido com aquela lição.

Nelson Miranda, de nove anos, um dos alunos mais participativos durante a aula afirmou ter aprendido que "os anúncios por um lado são bons, mas por outro são maus".

Revelando alguma dificuldade em escolher um dos bons, Nelson Miranda acabou por referir "os placards que indicam como vai estar o tempo".

Como mau exemplo, o aluno referiu que se "uma pessoa está a tentar poupar e aparece um reclame a dizer para comprar um carro caro, pode levar a pessoa a fazer coisas más como assaltar um banco para poder comprar".

Apesar da lição aprendida, Nelson Miranda admitiu que "às vezes chateia os pais" a pedir coisas, como uma consola.

"Pedi para me comprarem uma playstation portátil que tinha visto anunciarem na televisão. E consegui!", contou.

Questionado sobre se existe por parte dos pais alguma preocupação em educá-lo quando aos riscos da publicidade e a forma correcta de a "ler", Nelson Miranda afirmou que o assunto publicidade já foi muitas vezes falado em casa porque o "pai faz publicidade".

"O meu pai é agente funerário e faz muita publicidade. Às vezes quando aparece um bom sítio para pôr um anúncio, o meu pai telefona logo a pedir para pôr".

Conceição Henriques esclarece que "um dos objectivos do professor é desenvolver nos alunos a capacidade de intervir, de ter um olhar crítico e desenvolver opiniões", e destaca que o facto de o assunto ser discutido nas aulas, entre pares, é importante porque confronta os alunos com as opiniões dos colegas.

Quanto à possibilidade de abolir a publicidade dirigida às crianças, Roberto Carneiro, coordenador do Grupo de Peritos do Programa Media Smart, considera contraproducente, uma vez que se vive "numa sociedade de riscos".

"As crianças têm que aprender como atravessar uma estrada, evitar contactos com desconhecidos, da mesma forma que este programa a traz ao mundo real e ensina-as a lidar com ele. As crianças estão imersas numa sociedade de consumo e em publicidade. Não se trata de eliminar o risco, mas de aprender a reflectir", defendeu.

Questionado sobre o risco de a educação para o consumo estar entregue precisamente aos anunciantes, Roberto Carneiro sustentou que a APAN adoptou um programa internacional, à semelhança do que já aconteceu por exemplo com a Inglaterra, Finlândia, Suécia ou Holanda.

"O projecto é orientado por pedagogos e especialistas e não tem havido tendência totalitária de introduzir conselhos ou anúncios menos úteis para as crianças", sublinhou.

O responsável enalteceu ainda o facto de a adopção do programa em Portugal estar a ser alvo de acompanhamento por parte de outros países que já o adoptaram, na medida em que introduziu novidades de "vanguarda".

Estas novidades são o "papel dos pais" na educação dos seus filhos para a publicidade, que é muito mais enfatizado no modelo português e a existência de um dossier dedicado à Internet.

A este propósito, o coordenador do grupo de peritos enfatizou a importância de os pais controlarem o que os filhos vêem na Internet e na televisão, criticando o hábito crescente de colocar um aparelho televisivo nos seus quartos, o que já acontece com cerca de 53 por cento das crianças entre os 7 e os 10 anos.

Manuela Botelho, secretária-geral da APAN, afirmou que com esta iniciativa a associação quer transmitir a mensagem de que reconhece a legitimidade e preocupação dos pais e educadores quanto aos malefícios da publicidade dirigida às crianças.

Mas se, por um lado, "a publicidade tem impacto no desenvolvimento económico dos países", por outro, "a decisão de consumo cabe aos consumidores", pelo que o mais importante é "estarem alertados para o que está por detrás da publicidade", considerou.

O programa Media Smart é constituído por três módulos de ensino - Introdução à Publicidade, Publicidade Dirigida às Crianças e Publicidade Não comercial - que estão disponíveis, a partir de hoje, para as escolas que quiserem aderir e também no site, operacional desde hoje.

O programa tem um investimento previsto de 130 mil euros por ano ao longo de três anos e é financiado por empresas do sector de comunicação, indústria e anunciantes.

AL

LUSA